RUÍNAS ALADAS

Minha alma escorre como em um rio de palavras. Sou uma metáfora que ressoa como um gemido de uma Fênix em pedaços. Há uma chama que consome minha imagem, meu reflexo e meu aroma. Estou perdido, sem memória possivel, desaparecido e pulsando. Não há mais sóis nem templos de ilusão. Existo como um EU, que se reconstroi entre cacos e silêncio.



Segunda-feira, Novembro 15, 2004

A COISA E SEU DUPLO

¿ Eu sou.
¿ O que você é?
¿ Eu sou aquilo.
¿ Aquilo?!
¿ Aquilo que se arrasta sem forma.
¿ Uma ameba?
¿ Eu sou a coisa.
¿ A coisa.
¿ Coisa indefinível, inominada.
¿ Seja mais exata.
¿ E digo palavras inexatas.
¿ Cálculos aritméticos.
¿ Alguém...
¿ Quem?
¿ Alguém algum vez fez...
¿ Fez?
¿ Alguém alguma feita vez desordenada...
¿ Alguém?!
¿ Outra coisa fragmentária.
¿ Você?
¿ Todas as coisas indivisíveis.
¿ Indevassáveis.
¿ Inteligíveis.
¿ Incoerentes.
¿ Intraduzíveis.
¿ Intransferíveis.
¿ Imutáveis.
¿ Não! Imutáveis não!
¿ Metamorfismo.
¿ Nada muda e, no entanto, tudo muda na velocidade de sempre.
¿ Incontestável.
¿ Inconseqüente.
¿ Inevitável.
¿ Intensamente.
¿ Inenarrável.
¿ Infelizmente.
¿ Não!
¿ Sei bem o porquê do não. Foi um teste.
¿ Um teste?
¿ Você sabe o poder da parábola. Narrando histórias sem sentido. Alheio...
¿ Alheio aos sentimentos concretos.
¿ Alheio às vidas concretas.
¿ Alheio ao estado concreto.
¿ Alheio ao asfalto.
¿ Alheio à brita.
¿ Alheio ao tom.
(grito).
¿ As coisas desmaiadas somem num instante.
¿ Coisas atravessadas por sinetas.
¿ Olhos transplantados são peixes mortos.
¿ Boiando na água turva do açude.
¿ O rei tropeça na antena paranóica.
¿ A rainha enxuga as vísceras com flanela embebida em cicuta.
¿ A realeza é uma ilusão monarquista.
¿ Anarquista.
¿ Futurista.
¿ Masoquista.
¿ Comunista.
¿ Meteorologista.
¿ Violinista.
¿ Atletista.
¿ Ciclista.
¿ Dentista.
¿ Ginecologista.
¿ Motorista de ônibus lotado.
¿ Existo só.
¿ Eu e a coisa.
¿ Eu sou a coisa.
¿ Somos âmbar e ambas as coisas flutuando.
¿ Eu afundo.
¿ O fundo é a superfície.
¿ É verdade, não há outra maneira possível.
¿ O pó compacto não se dilui em água.
¿ Quero um cálice de veneno adocicado.
¿ Pulsos finos navalhados.
¿ Alianças hemorrágicas.
¿ Quero o colapso do delírio delinqüente.
¿ As noites transparentes degustam o parapeito.
¿ Ele me tocou.
¿ Ele me tocou e e me transformou em coisa única.
¿ Ele me tocou e me fiz espelho em pedaços grandes.
¿ Vivo cataléptico.
¿ Vivo leucêmico.
¿ Vivo diabético.
¿ Vivo esquizofrênico.
¿ Vivo o espirro alérgico.
¿ Vivo o TOC.
¿ Transtorno Obsessivo Compulsivo.
¿ Ninguém sente mais do que eu ¿ megalomaníaco.
¿ Eu sou a personalidade bipolar.
¿ Você?!
¿ Eu sou milhares de coisas misturadas.
¿ Eu separo os grãos de arroz dos de feijão miúdo.
¿ Acredita realmente?!
¿ Tudo vai para o mesmo espaço vazio, não é?
¿ Sempre foi minha única certeza.
¿ O calabouço.
¿ O manicômio.
¿ O picadeiro
¿ O elevador gigante.
¿ O parque público.
¿ O necrotério.
¿ A igreja protestante.
¿ O cemitério.
(grito).
¿ Não quero se sepultado vivo!
¿ Não haverá sepulturas para todos.
¿ Serei o crânio removido da sepultura de Ofélia.
¿ Será os restos de um velho palhaço decadente.
¿ Um clown de olheiras profundas.
¿ Um duende verde amordaçado.
¿ Um elefante albino repintado.
¿ Um telescópio transmutado.
¿ Um silêncio violado.
¿ Um aquilo coisificado.
¿ Um aquilo...
¿ Uma coisa.
¿ Seremos coisa estática ou dinâmica?!
¿ A inércia é um movimento acelerado.
¿ Retorno aos meus cometas de cristal.
¿ Retorno ao momento da grande rosa.
¿ Imagens fotografadas em sombras.
¿ A grande bomba.
¿ Serei feliz atravessando os cacos.
¿ Os pés nús dilacerados.
¿ Arranquem meus testículos com machados duplos!
¿ Sou a lâmina fina e afiada.
¿ Serei sempre assim?
¿ Alguma coisa atrás das marcas.
¿ Sinais de nascimento prematuro.
¿ As lunetas percorrem o estado de paranóia.
¿ Perdemos o rumo das idéias engarrafadas.
¿ Sou o lado onde boiam latas de sardinha.
¿ Digam aleluias orgasmicas.
¿ Sou um filete de água salgada.
¿ Amarrem minhas mãos, senão voarei nos diversos gestos e pantomimas.
¿ Amarrem minhas mãos...
¿ Amarrem minhas asas...
¿ Amarrem minhas idéias.
¿ Tão perdidas.
¿ Tão finitas.
¿ Tão rarefeitas.
¿ Tão tumultuadas.
¿ Tão decrescentes.
¿ Tão fuziladas.
¿ Amarrem meu último grito louco.
¿ Arrastem meus escombros.
¿ Quero gritar até o último instante!
¿ Sou a coisa! Sou a coisa!
¿ Grito blasfêmias reflexivas.
¿ Quero meus ímãs e o show de esgrimas.
¿ Calem-me!
(grito e silêncio).
¿ O toque.
¿ O toque.
¿ O eco.
¿ O eco.
¿ O som.
¿ O som.
¿ O sonho.
¿ O sonho.
¿ O delírio.
¿ O poema.
¿ O poeta.
¿ O mimetismo.
¿ A simetria.
¿ A sinfonia.
¿ Os violinos.
¿ As rabecas.
¿ Os pianos.
¿ Os saxofones.
¿ Os violoncelos.
¿ A guitarra.
¿ As cigarras.
¿ As ciganas.
¿ As vidraças.
¿ O olhar.
¿ O poente.
¿ O caminho.
¿ O desnível.
¿ O santo sem andor.
¿ A oração sem Deus.
¿ O homem sem alma.
¿ A negação.
¿ A salvação.
¿ O tiroteio.
¿ O incêndio no casarão.
¿ O banco de praça verde.
¿ As pessoas olhando.
¿ As mão tateando.
¿ Os dentes rangendo.
¿ O grito apagado.
¿ A luz na penumbra.
¿ Eu sou.
¿ O que você é?
¿ Eu sou aquilo.
¿ Aquilo.
¿ Aquilo que se arrasta sem forma.
¿ Uma Entamoeba histolytica.
¿ Eu sou a coisa.
¿ Eu sou você.

(L. F. Calaça | 13/11/2004)

postado por: LUIZ FERNANDO CALAÇA DE SA JUNIOR 4:36 PM Comments:




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